O Sonho de Escrever
O sonho de escrever é tornar em letras aquilo que só se sente quando se tenta tornar em letras aquilo que se sente ou imagina.
Não porque se sente ou imagina, mas por querermos achar em nós próprios algumas coisas que dêem para tornar em palavras.
Muito mais do que a reprodução das espécies, que consiste em ter filhos, conseguir escrever consiste apenas em sermos pais voluntários de nós próprios. Escrever é a masturbação duradoura.
Têm razão os filisteus que não gostam de intelectuais: é tudo masturbação. Mas preservada. E reproduzida.
A masturbação, em latim, tem um “mas” que se acrescenta a um turbamento. O “mas” é a chamada à realidade: tu podes bater as punhetas que quiseres, mas a pessoa em cuja honra as bates está-se nas tintas (turvadas, como faz o choco perante uma ameaça) para ti.
Escrever é um triunfo parecido: vimo-nos e incitamos outros a virem-se, sem a autorização da pessoa que invocámos sem consulta ou convite. Ela ou ele não nos liga nenhuma – mas nós escrevemos à mesma, como se eles fossem susceptíveis aos nossos mais limpos desejos.
Alguma coisa proclama, como no tédio entesado do I want you de Bob Dylan, que escrever, tal como falar ou vestirmo-nos bem, é uma maneira de chamar a atenção, dizendo a verdade. “Tu pões-me tão maluco que não consigo mentir-te, mesmo quando é para meu bem e não te fizesse mal nenhum”. É esta a sensação e a mais ou menos eficaz incompetência de quem ama. E de quem escreve.
Assim seja sempre.
- Miguel Esteves Cardoso, Público, 9 de Novembro de 2009



